Saturday, October 1, 2016

Resenha(ou nem tanto) - Sacanas do Asfalto, de Robson Gundim




É sempre complicado falar sobre a escrita de algum amigo, pois é muito fácil recorrer à subjetividade. Ok, para mim, leitura, de qualquer modo, é muito subjetiva.
Sacanas do Asfalto é o quarto livro solo lançado pelo escritor Robson Gundim. Começa com três jovens que viajam para encontrar alguns amigos e curtir as férias. Os três são estudantes de Cinema, mas nunca imaginaram que estariam prestes a se envolver em uma trama digna das telonas. Rob, Arthur, Teh e seus amigos são confrontados por uma gangue, que decide matá-los, sem motivo. Depois de ficarem devendo favor a um traficante de drogas, parte deles é mantida em cárcere privado enquanto outros devem arriscar a vida e buscar uma grande quantidade de drogas.
O texto segue um ritmo ágil, cheio da linguagem apurada de Rob, já conhecida dos seus leitores. O que surpreende é a linguagem mais moderna dos personagens, condizente com o tempo em que a história ocorre, nos dias atuais. Mas com as antigas histórias de piratas, estávamos acostumados com uma linguagem mais formal. E é aí que reconhecemos a qualidade do autor: sua capacidade camaleônica de se ajustar a cada novo cenário, tempo e personagens que escolhe.
Muitas vezes, realidade e ficção se misturam. Alguns nomes de personagens são emprestados de amigos de Rob, além do principal, que é inspirado no autor e carrega seu próprio apelido. Os fiéis escudeiros dele são Arthur e Teh, inspirados nos reais Arthur e Stefani que comandam com ele o Canal Nerd Killers, no Youtube. Criar personagens inspirados em amigos e na sua vida, transformando-a em algo épico é a arte que todo escritor domina(ou deveria). É o que o torna mais interessante, sair do lugar comum para o extraordinário, sem tirar os pés da terra.
Depois de “rasgar seda”, vamos ao que realmente importa. O que eu pensei do livro, o que vi nas entrelinhas e se gostei.
A história é inspirada nas obras de Quentin Tarantino e eu não posso atirar pedra, pois eu amo JK Rowling e tudo meu tem um pouco de referência a ela. Porém, em muitas passagens, é possível sentir algo dos filmes nacionais e personagens que encontraria neles. Gundim segue sua narrativa de maneira eletrizante e seria interessante vê-la como um roteiro.
Os personagens são figuras típicas do realismo brasileiro moderno: jovens bonitos, políticos corruptos e traficantes. E aqui vemos uma pequena crítica social, a facilidade com que o crime e o tráfico assolam o Brasil, devido à corrupção, impunidade e a falta de fiscalização policial.
O que me incomodou um pouco foram as personagens femininas, carregadas de sex appeal, demonstrando sua força pela violência, enquanto outras são totalmente vulneráveis. Porém, quem sou eu para falar de estereótipo quando caio facilmente no clichê romântico.
Sacanas do Asfalto recordou-me de livros que lia na escola, como O imperador da Ursa Maior e A infância acabou. Aquele momento em que eu era arrancada da minha zona de conforto, embala pelos romances e fantasias, e era confrontada com a dura realidade que existe no mundo; como a juventude do Brasil é espreitada pelo lobo mau da corrupção, drogas, prostituição e violência.
As ilustrações, feitas pelo próprio autor, são um recurso à parte, que torna o trabalho de Robson ainda mais admirável e o único defeito é não ter mais delas. Ele segue um estilo realista, equivalente às histórias em quadrinhos americanas e homenageia os amigos de forma cândida.
Para quem não gosta de um estilo mais realista não se sentirá agraciado(a) pela leitura de Sacanas do Asfalto, mas digo que cada leitura nos traz mais conhecimento de mundo, de vocabulário e mais argumentos para discussão. Os livros de Robson têm essa qualidade.

Soraya Freire é escritora, gestora ambiental e fã da escrita de Robson Gundim.

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