Friday, May 27, 2016

Isso tem mais a ver comigo ou com ela?


Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Eu não quero ser chato
Mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim

Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado
Já que foi o resto da vida inteira que me fez assim

(Clarice Falcão - Capitão Gancho)

Verdade seja dita: quem gosta de ser preterido(a)? É aquele momento em que você pensa não ser bom/boa o suficiente, há algo errado com você, etc. (Pensamentos negativos são como fungos em lugar quente e úmido. #UmHorror)
Mas(e há sempre um mas), agora que eu consigo ver cada situação depois do primeiro impacto, por outro ângulo, vamos pensar.
Cada um tem critérios de escolhas; a verdade é essa. Eu ou você vamos escolher alguém baseado em nossa criação, valores, padrões, etc. Isso também funciona para pais que escolhem(ou tentam) alguém para seus filhos.
Aconteceu três vezes, mas, da última, ao ser assaltada pelos pensamentos do primeiro parágrafo, eu parei e refleti. Isso tem mais a ver comigo ou com ela? Com certeza, a mãe teve seus critérios de escolhas para seu filho. E a maneira como eu reagi, das outras e dessa vez, fala mais sobre mim.
Então, se você pensa que é "um pequeno pedaço de lixo, a escória da Terra, talvez"* por ter sido preterido(a), isso fala mais sobre você. Hora de rever autoestima, senso de valor próprio... E vai perceber: o fato de não ser escolhido não é culpa sua. Não mesmo. E, de alguma forma, não da pessoa que te preteriu.

(*) Frase de Fabíola Melo, no vídeo "Como me livrei da baixa autoestima", que aliás eu recomendo.

Soraya Freire é escritora, gestora ambiental e consegue avaliar melhor ao ser preterida.

Thursday, May 19, 2016

Não romantizem a violência sexual!

Certo dia eu estava em um grupo do Facebook e tinha uma menina desabafando sobre uma fanfic. Para quem não sabe, fanfic é uma história criada por fãs, com os personagens de suas séries, livros, etc. preferidos. Ela falava que uma dessas histórias retratava uma violência sexual e colocava a culpa na vítima, por ela estar bêbada. Fiquei pensando sobre isso, principalmente porque estava assistindo à novela Fatmagul e por causa de uma história que estava escrevendo.
Tive certeza que deveria escrever esse texto, depois de assistir a um vídeo da Danny Boggione, do Canal Sobrevivendo na Turquia. Ela falou sobre a falta de interpretação das pessoas em relação às novelas turcas.
Eu, sinceramente, não sabia que existiam novelas turcas, nem que elas faziam tanto sucesso na América Latina. Minha irmã me falou sobre "Mil e uma noites" e eu perguntei sobre o enredo, se a protagonista usava véu. Essas coisas que sabemos superficialmente sobre "os países do lado de lá". Verdade que estudei sobre a Turquia na sétima série, eu acho, mas não lembro de nada.
Passou. Até que um dia a TV estava na Band e eu vi um trecho de Fatmagul. Aquele drama todo me chamou a atenção. No dia seguinte eu pesquisei sobre e comecei a assistir. Vi todos os capítulos já lançados em português e concluí assistindo aos episódios em espanhol.
Esse é um resumo da minha história com as novelas turcas, mas não é sobre isso que quero falar. Mas sobre o quanto elas romantizam a violência contra a mulher e os espectadores não percebem.
Fatmagul(cujo título é o nome da protagonista) conta a história de uma moça que é estuprada por três rapazes(Selim, Edorgan e Vural) e um que não participa do ato, mas não impede os outros(Kerim). Depois de ser ameaçada pelo advogado dos três primeiros, que são muito ricos, e sofrer pressão psicológica também da cunhada, Fatmagul se casa com Kerim para "salvar sua honra".
Para quem está achando loucura, na Turquia é assim. Existem os chamados crimes de honra*. As mulheres que são violentadas são "manchadas" e muitas famílias preferem matá-las ou elas são obrigadas a casar com o violentador. Parece irreal para nossa realidade, mas... Vamos continuar.
Agora a Band está exibindo Sila. Ela é obrigada a se casar com Boran, o líder de um clã, porque seu irmão mais velho foi descoberto em uma relação ilícita com a irmã de Boran. Para não haver a morte do casal, houve uma troca de noivas. Não vou me alongar. O fato que quero ressaltar é que Sila não sabia que teria que se casar. Ela foi adotada quando pequena e depois de muitos anos, seu pai biológico volta, a engana e a leva de volta a sua terra natal para se casar com um estranho. Algum tempo depois, Boran, embriagado, obriga Sila a consumar o casamento.
Por serem casados, parece que não foi violência. Parece.
Agora, por que essas novelas fazem tanto sucesso no Brasil? Por que algumas mulheres estão apaixonadas por esses personagens? Eles são bonitinhos, mas há uma diferença entre atores e personagens. E não estamos aqui para assistir, ler, ouvir e achar tudo lindo, sem senso crítico.
Acho que esse fascínio cego vem de uma cultura com um quê de moderna e anti-violência contra mulher, mas enraizada no machismo. Ouvir dizer que mulheres gostariam de ser a Sherazade(de Mil e uma noites), Fatmagul e Sila é concordar com a submissão a maus-tratos e violência por causa de um cara bonito e um suposto amor.
A violência sexual não pode e não deve ser romantizada! Ela destrói a autoestima, o amor próprio, o senso de valor da mulher e até ela superar tudo isso não são apenas alguns meses como em uma novela. Leva anos, uma vida. Algumas nunca superam.
Eu estava trabalhando em uma história e um dos casais tinha uma história bem complicada que estava me desafiando em vários sentidos. Até eu perceber que a maneira como eu havia desenvolvido, chegaria a meu objetivo, mas havia algo ali que era de certa maneira uma violência contra a personagem e eu pisei no freio. Reavaliei e conduzi por outro viés.
O que quero dizer é que como espectadores, leitores ou escritores temos que ter em mente que nem tudo colocado sob uma ótica romântica merece ser romantizado. Os subtítulos das novelas trazem "Força do Amor" e "Prisioneira do Amor". Realmente, força é o que Fatmagul precisou ter para enfrentar homens poderosos e fazer justiça, para se superar, perdoar e tentar levar um casamento forçado. Prisioneira é o que de fato Sila é. Presa a um sistema de mentiras, a um casamento arranjado e ao perigo de ser morta a qualquer instante por ter "quebrado as regras". 
É muito fácil sermos influenciados, se não estivermos de olhos abertos e com as anteninhas críticas ligadas. O ser humano tende a se adaptar, se acostumar com algumas coisas. Isso inclui achar normal a violência doméstica, sexual, as músicas que denigrem a imagem feminina... Longe de feminismo ou qualquer outra bandeira partidária, mas como diz Alanis Morissette "essas são as versões da violência, às vezes subentendidas, às vezes claras". Até onde vai a linha tênue que divide o romance, de uma realidade violenta maquiada, tentando nos convencer que é amor um caso grave da Síndrome de Estocolmo?

*Crimes de honra são aqueles causados por qualquer comportamento que a família considere desonroso, incluindo relacionamento homossexual, relações fora do casamento, mulheres que abandonam a casa do marido ou até mesmo uma moça que seja vista conversado com um rapaz. Saiba mais em:




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